Clotilde Leguil (resenha)

Às 18:30, do dia 17 de maio de 2013, recebemos, na EBP-Rio, nossa colega da ECF, Clotilde Leguil, para uma conferência, seguida de um debate sobre Sartre e Lacan, uma ligação perigosa, tema do seu último livro.

Numa mesa coordenada por Manoel Motta, tivemos como convidado debatedor o nosso colega da EBP-Minas Antônio Teixeira.
A tradução da fala de nossa convidada foi assegurada por Fernando Coutinho.

O público foi numeroso.

Após a apresentação da conferencista (autora de vários livros e artigos sobre psicanálise, filosofia e cinema), Manoel passou a palavra a Clotilde, que nos disse que havia modificado um pouco o tema de sua conferência, sem, entretanto, sair dele. Iniciou sua intervenção relatando o fato e as conseqüências do “evento” que mobilizou intelectuais, políticos e psicanalistas franceses durante o último inverno: “Le mariage pour tous”.

Em Paris, o debate dividiu a opinião pública, mas também os analistas, preocupados, com base na teoria freudiana e mesmo no ensino de Lacan, com as conseqüências da aprovação da lei.

Os contrários à aprovação da lei alegavam que a mudança ameaçava não somente os filhos desses casais, mas a própria civilização. A transmissão do Nome do Pai estava ameaçada, afirmavam analistas lacanianos não ligados à AMP, ao mesmo tempo em que os analistas da Escola, incentivados por Jacques-Alain Miller, optaram por se engajar nessa causa.

Esse engajamento, entretanto, não implicava na depreciação dos significantes da cultura (homem, mulher, pai, mãe), que, desde a “Instância da letra”, Lacan nos ensinou a jamais tratar de forma leviana.

A conferencista discorreu brilhantemente sua argumentação recorrendo aos argumentos contrários à medida emitidos tanto pela Igreja quanto por diversos autores. Recorreu também à defesa equivocada realizada por alguns autores, sobretudo por Judith Buttler, socióloga americana que vem discutindo há bastante tempo a questão do gênero.

Chega ao ensino de Lacan, passando por Simone de Beauvoir, Sartre e Freud, demonstrando a decisiva importância da linguagem e do discurso no que diz respeito à diferença de sexos. Os efeitos do Nome do Pai e Desejo da Mãe são desejos estruturantes da criança que independem da diferença anatômica do sexo dos pais.

A psicanálise de Orientação Lacaniana vive uma época de realinhamento do conceito de família e não de uma destruição da mesma.
Clotilde Leguil estabelece um paralelo entre o reboliço causado pelo “mariage pour tous” e o acontecimento Lacan, de 1964, quando ele arranca a psicanálise das verdades da religião e certezas da natureza.

Retoma seu Sartre e Lacan a partir da “insondável decisão do ser”, que o segundo retirou do primeiro.

A democracia sexual vai passar à democracia reprodutiva, é uma das principais conclusões da conferencista propondo então uma reinvenção da tradição, pois sem isso ela corre o risco de tornar-se letra morta.

Antônio Teixeira, o debatedor, levanta uma questão sobre a diferença sutil entre o olho e o olhar, que relança o tema principal da autora, de buscar na obra filosófica e ficcional de Sartre a inspiração de alguns conceitos lacanianos.

Seguem-se à resposta de Clotilde, numerosas perguntas e comentários do público.

Foi uma rica noite de trabalho e reflexão para todos nós.

Fernando Coutinho
Rio de Janeiro, 29 de maio de 2013